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Isso não é um convite

Isso não é um convite

“Eu ainda quero foder contigo.”


“Mas foder comigo não é algo que eu sou ativa na história, querer foder comigo envolve várias variáveis, uma delas é eu querer foder contigo, e eu sinto que você assume que eu não tenho essa escolha.”


Silêncio...


“Mas a minha frase não assume que você não tenha escolha.”


E foi assim, um frase dita de maneira extremamente simples pelo outro que eu entendi que minhas fotos são um convite e eu não tenho o direito de recusar, que o outro se sente no total direito de vir até mim e depositar suas expectativas sem se questionar se eu fazia parte da equação sexo.


Escrevo esse texto como quem está sentada no banco do réu, em um júri que precisa saber de todos os meus movimentos pra decidir se eu posso ou não dizer não, ao final você pode me dizer seu veredito. Então vamos começar a minha defesa:


Eu sempre senti muita dificuldade em dizer não, em ser assertiva e falar diretamente pra um cara que ele está me incomodando, sempre fui cheia de floreios e voltas que faziam o cara pensar que eu não estava com ele não porquê eu não queria, mas por ter uma vida ocupada, muitas coisas na cabeça, muitos eventos com amigos, qualquer motivo que não seja um “não quero” muito claro. Isso acabou tem pouco tempo, eu percebi que aceitava muito bem um “não” sem maiores explicações, mas que ficava inventando desculpas pra desconhecidos. E se eu fosse chamada de louca por “instigar” e depois não “finalizar”, tudo bem. Eu tenho o total direito de ser “louca”, quem disse que todas as minhas decisões precisam ser 100% racionais? E mesmo que eu queira, eu tenho todo o direito de parar no início, no meio, no quase fim... Meu desejo é parte importante da equação.


Acontece que recentemente passei por dois acontecimentos que me fizeram perceber o quanto as pessoas têm uma visão errada sobre sexo. Sexo não é depositar energia em alguém, é troca. Pode parecer óbvio quando falado dessa maneira, mas as nuances que cercam as atitudes não são tão claras.


O primeiro foi quando estava voltando pra casa, sentada na estação Pinheiros esperando o Trem pra Santo Amaro. Fui levantar pra entrar no vagão e um homem me parou: “Posso conversar com você?”, olhei meio com estranheza e disse que já estava pegando o trem, ele falou que pegaria também e eu acenei que poderíamos conversar então. Durante o caminho ele falava o quanto tinha me achado bonita e gostado dos meus peitos, eu tentava iniciar uma conversa mais “aconchegante” perguntando sobre o que ele fazia, mas ele sempre voltava o assunto pra dizer o quanto seria legal se a gente se pegasse e sugeria toda hora um local pra irmos dar uns beijos. Era 23h30, eu voltando de trem pra casa depois de um dia de trabalho + faculdade. COMO DIABOS ELE ACHOU QUE ABORDAR UMA PESSOA DO NADA E CHAMAR PRA SE PEGAR, DEIXARIA ESSA PESSOA EXCITADA? Falei que não queria várias vezes e quando chegou a hora de nos separarmos ele me deu um abraço e tchau. Não pediu meu número, um instagram, e nem perguntou quando poderia me ver de novo. Eu achava que já que ele estava tão interessado em me pegar, pelo menos pegaria meu número, mas nada aconteceu.


Me senti culpada, como se eu estar com decote foi o que chamou atenção dele e agora eu não poderia repreendê-lo. “Ah, mas você disse que poderiam conversar, já sabia as intenções dele.” Mas eu saber as intenções me exime de ter desejo próprio? Eu posso aceitar jantar com você, mas isso não quer dizer que quando minha boca faz o movimento de sim a minha buceta fica molhada automaticamente querendo ser penetrada. Eu me arrumar inteiramente e ir pra casa do crush com o intuito de fuder a noite toda não implica que eu possa chegar na porta dele e subitamente não querer mais. O desejo é a chave do sexo. Por que vivemos em uma sociedade em que é ensinado que devemos fazer sexo sem sentir vontade? Não estamos nos colocando em situações abusivas (que nem poderemos reclamar depois, porque pedimos)?


Foi aí que eu entendi que sexo, pra maioria das pessoas, é depositar a energia sexual no outro. “Vou sair pra balada hoje e dar pro primeiro que passar”, “Quero foder contigo”, “vou entrar no tinder pra fuder com alguém”. Em todas essas frases só existe uma pessoa ativa: o eu. O eu que precisa tanto de um orgasmo que quer pegar qualquer um e quem sabe, na sorte, ter uma experiência que não seja vazia e um sexo minimamente bom?


Eu não quero sair pra encontrar pessoas pra fuder, eu quero me sentir excitada com um flerte e os dois corpos darem sinal que precisam disso, sexo envolve duas pessoas ou mais, o desejo de todas elas tem que ser levado em conta.


O segundo é referente a conversa do começo do texto, esse cara me conheceu em um grupo de mochileiros onde eu postei foto e relatos da minha viagem a Colômbia. Ele me segue no instagram tem cerca de 2 anos e quando eu postava fotos minhas, ele sempre elogiava. Sempre agradeci e pra mim nunca passou disso! Ate que as investidas começaram a ficar mais fortes e eu ficava com receio de cortar e parecer que eu era frígida e afinal, ele só estava me elogiando (maldita a mulher que recusa um elogio, não é mesmo?). Um dia eu achei que já era hora de me impor e falei que não curtia muito as mensagens, porque eu sentia que ele olhava minhas fotos de uma maneira diferente (por mais doido que isso possa parecer) e eu não queria essa atenção. Ele falou que entendia e ficou na surdina por um tempo até voltar a responder meus stories. Todos os convites dele pra sair são pra um lugar próximo da casa dele. Toda a conversa é deixado bem claro que ele quer transar comigo. E aí, novamente: onde entra meu desejo nisso tudo?


“Você parece atrair atenção sexual pelas suas fotos, e parece querer e gostar disso.”


Que mulher não quer se sentir desejada? Mas isso não exclui que eu preciso sentir desejo também e que eu não posso recusar. Pra vocês a conversa do começo do texto pode parecer somente uma mulher convencida dando um fora em um cara e cheia de mimimi. Pra mim, eu estou claramente me colocando na posição de protagonista do meu desejo. E vocês podem até achar por N motivos que eu instiguei e deixei ele na mão. Acontece que eu nunca assinei nenhum contrato, nascer com uma buceta não me faz ter assinado esse contrato, assim como estar no tinder, postar foto dos meus peitos ou sair com roupa curta, também não me fazem ter assinado contrato algum.


Minha existência não é um convite.

Monique Ventura

Autora

Estudante de administração, professora de cálculo, produtora executiva do Projeto Lume e estagiária da V-Lov.
Dependendo do momento que você me conhecer eu posso ser só uma delas ou todas ao mesmo tempo :)

Nunca acreditei em signos, mas acredito no poder de crer em algo! Por isso já gostaria de deixar escrito aqui (pra quem acredita e entende sobre) que sou capricorniana com ascendente em escorpião. Sim, sou uma pessoa muito pé no chão e que tem apego as coisas sólidas. Amores líquidos não são pra mim.

Gosto de repensar a ideia de beleza, de entender porque a sociedade segue um padrão, os motivos nos quais nós, mulheres, se entregam de corpo e alma pra uma ditadura. Por que nós acordamos todos os dias querendo ser bonitas? Quem ganha com isso? O que nós ganhamos com isso?

Ah, tenho algumas tatuagens. A maioria não tem significado se olhadas separadamente, o contexto não esta no desenho, mas no momento em que as fiz <3
Acredito que agora vocês já conseguem compreender um pouco sobre mim!

<3